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PROGRAMA DE PASTAGEM julho 11, 2007

Posted by JN, Rio de Janeiro in Pode isso?.
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O texto abaixo foi desenvolvido e encaminhado pelo Gabriel Lacerda Troianelli. Divirtam-se! 

mr-fergunson-via-flickr-cc.jpg

‘É fato.  Após o sucesso dos programas de milhagem, as empresas aéreas instituíram o programa de pastagem.  A medida é nova e poucos cartões foram distribuídos, ainda a título experimental.  Logo de início o cliente ganha um plástico adesivo com um boneco de madeira, narigudo, circundado pela seguinte frase: “Eu acredito na Infraero”.

O plano funciona mais ou menos assim.  Todo o tempo passado nas salas de espera dos aeroportos que exceder àquele que seria gasto se o vôo não atrasasse é convertido em pontos, que podem ser trocados por algumas vantagens.  Entre as de maior sucesso até o momento, estão a engraxataria sem custo em todos os aeroportos do País, o direito de não sentar na poltrona do meio nos vôos de assento livre, e, o mais popular, o de participar de um seleto grupo cujas malas sempre aparecem na frente das outras nas esteiras, como os pelotões de elite nas maratonas.  Mas não é só.  Sempre que o membro do plano provar que teria chegado mais rápido ao seu destino caso tivesse ido por terra, poderá preencher um formulário que será incluído no sorteio semanal de uma viagem para qualquer lugar do Brasil, com direito a acompanhante, em ônibus leito.

Pensa-se em permitir a utilização dos pontos para a obtenção de descontos nos shoppings dos aeroportos.  Antigamente os aeroportos tinham no máximo lojinhas, exceto os internacionais providos de free shops, aqueles templos do antitabagismo onde os charutos, alguns anteriores à revolução cubana, jamais deixam de se revelar absolutamente impróprios para o consumo humano.  Mas hoje todos começam a ter verdadeiros shopping centers, alguns capazes de rivalizar com os melhores de suas cidades, fato absolutamente compreensível dada a extensão do lapso temporal que sempre transcorre entre o check in e o embarque.  Estuda-se, ainda, a abertura de academias de ginástica, spas, e mesmo, em alguns lugares, campos de golfe.  Tudo, é claro, sujeito a desconto mediante a apresentação do cartão de pastagem.

Embora ainda sejam poucos, os inscritos nos programas de pastagem podem ser facilmente reconhecidos por alguns sinais exteriores.  Os mais graduados, por exemplo, jamais se alteram.  Mesmo no pior atraso, dentro da maior confusão, mantêm a serenidade de um adepto do Buda prestes a atingir o Nirvana.  Não por virtudes morais, mais por saberem que, não importa o que façam ou gritem, o tempo já está perdido de qualquer modo e não vale a pena, além disso, perder também o bom humor.  Também a manutenção de garrafas personalizadas de Johnnie Walker Red Label nos bares dos principais aeroportos do País é forte indício de participação no programa de pastagem.  Há, finalmente, os livros.  Membros do programa freqüentemente são vistos nos saguões com livros talvez pequenos em tamanho mas robustos de conteúdo, como os editados pela Nova Aguilar, raramente com menos de mil folhas, em papel bíblia e escritos com letras de bula de remédio, as antigas, não as de hoje, politicamente corretas com suas letras grandes.  Além de fornecerem boa literatura – estou lendo, agora, o terceiro volume das Obras Completas de Machado de Assis, e recomendo a parte dedicada às crônicas – por pelo menos sessenta horas corridas, são opções de leitura muito melhores do que os jornais, que nos deixam uma certa saudade dos tempos em que o único Chaves de língua castelhana e trajes vermelhos que aparecia na mídia tinha por companheiro o Chapolim.

Mesmo recente, o programa de pastagem já tem suas memórias.  A mais divertida ocorreu com o titular de um cartão fidelidade vermelho-de-raiva, que, sentado com vista para a asa do avião, deu-se repentinamente conta da absoluta cretinice daquela inscrição “não pise fora dessa área”, já que, a não ser nas condições mais anormais possíveis, em que todas as regras e recomendações perdem o sentido, as únicas pessoas que subiriam na asa da um avião seriam técnicos, engenheiros, enfim, pessoas que em razão do ofício sabem muito bem onde não devem pisar; além, é claro, das iletradas aves, cujas pisadelas desautorizadas dificilmente poderiam infligir algum dano à aeronave, embora suas entradas suicidas nas turbinas em movimento possam gerar certo desconforto durante o vôo.  Um dia, já esquecida a conclusão, depois de um “pouso tardio de aeronave em trânsito” tê-lo imposto um atraso de doze horas e o feito caminhar boas centenas de metros até o avião que estava parado no meio do pátio, ele literalmente surtou; não subiu no avião nem pela porta da frente, nem pela de trás, mas pelo meio, ou melhor, pela turbina, e começou a pular freneticamente na área proibida.

Com tudo que o programa de pastagem oferece, por que falar ainda em trem bala?  Sobretudo quando temos o avião chiclete, que depois de grudar no chão dificilmente sai.  Mas afinal de contas, balas ou chicletes, o que esperar em um País cujo maior posto de sua Aeronáutica ostenta o nome de um tipo de guloseima?

Gabriel Lacerda Troianelli’

Foto de Mr Fergunson, via Flickr

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Comentários»

1. anasimplesassim - julho 13, 2007

“Estuda-se, ainda, a abertura de academias de ginástica, spas, e mesmo, em alguns lugares, campos de golfe” . ( risos)
Adorei, Gabriel! Muito divertida a sua cronica :)

2. PEDRO - julho 17, 2007

Inacio já deixou bem claro não adianta vaiar !! Meu eleitorado, [quenão é da crasse média, tá FELIZ ] A ÚNICA COISA QUE ME TIRA DAQUI , É ”’APAGÃO DE JÉGUE ”’!!!

3. ROSÂNGELA MEDEIROS - julho 25, 2007

O POVO NESSE PAÍS TORNOU-SE MASSA DE MANOBRA DE POLÍTICOS CORRUPTOS, me recuso a fazer parte da mesma. Como CIDADÃ fica o registro de que não quero ser mais uma a rir da situação dos que sofrem no CAOS AÉREO. Me angustia GABRIEL ver a forma que somos tratados em qualquer parte desta NAÇÃO Afinal para sermos palhaços não falta mais nada. O CIRCO BRASIL armado em BRASÍLIA tem no PICADEIRO O ARTISTA MOR aquele tem por hábito fazer piadinhas com todas as tragédias nacionais e pensa que todos riem com ele.
Nós CIDADÃOS BRASILEIROS pagamos nossos impostos em dia, trabalhamos 5 longos meses para pagarmos todas as MORDOMIAS desta corja que desgoverna o país. A cada dia mais vivemos a desesperança, pois a OMISSÃO, a COVARDIA nos incapacita para lutarmos contra este descalabro que nos deixa cada vez mais perplexos.
Ao proceder ao aparelhamento do ESTADO, ao APADRINHAMENTO de irresponsáveis que coloca nas presidências dos ORGÃOS que deveriam ser geridos por técnicos, pessoas capazes, de conduta irrepreensível o presidente nos mostra sua incapacidade de governar o BRASIL. Ao fazermos piadas também com as nossas tragédias pessoais, com a falta de respeito com que somos tratados por todos, demonstramos a nossa total falta de CIDADANIA.
FALTA no BRASIL a QUALIDADE EM TUDO: ESCOLAS, SAÚDE, SEGURANÇA PÚBLICA, TRANSPORTE, ESTRADAS, INFRAESTRUTURA.
E o que é mais importante: FALTA RESPEITO, cumprimento da NOSSA CONSTITUIÇÃO. BASTAVA isso para sermos uma GRANDE NAÇÃO.
Repito aqui TIRADENTES:
“SE QUISESSEMOS PODERIAMOS FAZER DESTE PAÍS UMA GRANDE NAÇÃO”:
Basta que queiramos, para isto precisamos LUTAR, e só com a UNIÃO poderemos fazer a nossa GRANDEZA.


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